A história da minha busca pela nossa História – a descoberta

Escrito em 23 de agosto de 2010 e dedicado à família de minha mãe

Olho no espelho. De onde esses olhos claros, de quem esses cabelos louros?
Por que essa altura muito maior do que a média brasileira?
– De onde você é?
– Minha mãe é do Rio Grande
– Ah, sabia, do Rio Grande do Sul
– Não, do Rio Grande do Norte
– Mas seus pais de onde são?
– Do Brasil, meus avós são do Brasil e meus bisavós são do Brasil também.
– Não é possível!
Quantas vezes esse diálogo se repetiu, quantas vezes o espanto, o questionamento?
Quando criança eu dizia que descendia de holandeses do tempo da invasão, mas quando cresci e olhei os nomes de meus bisavós e trisavós, não encontrei nenhum “Van Qualquer Coisa”.
Não acreditei nos que diziam que descendíamos de holandeses.


Na adolescência e juventude – quando você quer muito pertencer ao grupo – eu era tratada como estrangeira apesar de sustentar todo o tempo ser brasileiríssima.
No Brasil que valoriza mais quem é de fora, a decepção quando eu dizia que era brasileira era visível.
Eu queria ser brasileira e não estrangeira, eu queria pertencer, eu queria saber de onde eu havia vindo!
Além da hipótese holandesa que eu descartei por conta dos nomes portugueses, havia outra hipótese.
É de conhecimento geral que Pinheiro, Pereira e outros nomes tirados de árvores foram sobrenomes adotados por judeus convertidos ao catolicismo.
Seria Lima um sobrenome de judeus convertidos?
Há 6 anos pesquisei o sobrenome Lima e outros dos ancestrais de minha mãe em um dicionário de famílias brasileiras e encontrei-os todos como destacadas e nobres famílias portuguesas de muitos séculos, como são todas as famílias descritas em dicionários genealógicos. Para praticamente todos os nomes havia um brasão, um título, terras, pessoas importantes.
Segundo o dicionário, Lima, por exemplo era um sobrenome toponímico, ou seja um sobrenome adotado por uma família por ter ligações com o lugar em que habitavam: Ponte de Lima, uma região ao norte de Portugal.
Bom será então que eu era loira por conta do povo celta que habitava esta região?
Uma pergunta me intrigava: como os traços se preservaram ao longo de tantos séculos em um país que prima pela abençoada miscigenação e diversidade?
Concluí então que eu não passava de um engodo genético.
Era o que eu dizia para todos: eu sou um engodo genético, meu pai é alto e moreno e minha mãe é loira e baixa, porisso eu nasci loira e alta.
Só assim deixei de lado minha curiosidade e toquei a vida com este assunto esquecido.
Já que o estudo do DNA provou que as raças sequer existem e que descendemos todos de uma mesma tribo que saiu da África e se espalhou pelo mundo pouco importava de onde eu era ou quem seriam meus antepassados.
Eu tinha tanto interesse por este assunto como por descobrir quem eu fui em vidas passadas.
No entanto, todas as vezes em que eu via as fotos da avó paterna de minha mãe – Cecília Tavares de Albuquerque – e ao conhecer os sobrenomes de sua avó materna – Luzia Alves Freire era como se eu ouvisse uma voz falando comigo: conte minha história, conte minha história.
Que história? Quem foram elas?
Esqueci o assunto.
No início de 2009 eu conheci um judeu israelense que vivia no Brasil e fiquei conhecendo um pouco mais de Israel e da cultura judaica.
Impulsionada pela curiosidade, comecei a estudar a história do povo judeu, a cultura judaica e a buscar conhecimento sobre Israel.
Eu amo História e de repente eu me defrontava com 5.000 anos de história e com um povo que influenciou e influencia toda a cultura ocidental!
Antes de começar um curso de cultura judaica no Centro de Cultura Judaica de São Paulo (hoje UNIBES) eu já havia lido “Tudo sobre o Judaísmo” e o fascinante livro de Paul Johnson “A História dos Judeus”.
Duas coisas interessantes aconteceram quando eu lia esses livros.
No primeiro livro há uma introdução à história dos judeus e eu li a história de Abraão que iniciou o monoteísmo. Estava sentada no sofá da sala do meu apartamento em São Paulo, lendo sobre como Abraão questionou seu pai por vender estátuas de ídolos quando, para minha surpresa, algo muito estranho se passou.
Na parede oposta, a uns 3 metros de distância, eu tenho uma estante e deixei reservada uma prateleira que me serve de pequeno altar. Há uma estátua com a cabeça de Buda que fica em cima de uma vela quadrada grande .No exato instante em que eu lia sobre a destruição dos ídolos da loja do pai de Abraão, a figura de Buda caiu de sua base de vela, algo que nunca havia acontecido antes e que não voltou a acontecer.
Não havia ninguém mais na casa, o chão não balançou, ela simplesmente caiu.
Fiquei impressionada, mas coloquei-a de volta. Afinal, eu não a adoro, ela está ali para que eu me lembre dos ensinamentos budistas.
Mas registrei o fato como muito estranho e interessante.
Quando estava lendo “A História dos Judeus” vi a menção a uma família judia de nome Lima fixada na Suécia.
Tomei um susto! Como assim? Lima, um sobrenome tão português na Suécia e JUDEUS???
Corri para o Santo Google e, para meu espanto encontrei logo de cara o blog de um Lima que se dizia judeu, descendente de judeus portugueses da Holanda que haviam ido para o Recife na época da invasão holandesa.
“O Rio Grande do Norte é um dos casos mais interessantes de misturas étnicas entre judeus portugueses e holandeses, principalmente durante a colonização holandesa no nordeste no século XVII”
Em resumo, por conta da conversão forçada e da Inquisição, muitos judeus já com seus sobrenomes portugueses fugiram para outros países, inclusive para a Holanda onde formaram uma importante comunidade.
Outros vieram para o Brasil durante o tempo do Brasil Colonial ou foram forçados a isso. Descobri que  de cada 3 portugueses que vieram para o Brasil, um era judeu (cristão-novo). Segundo outros pesquisadores, esses números sobem para 1 judeu convertido em cada 2 portugueses chegados ao Brasil.
Quando os holandeses invadiram o nordeste muitos judeus portugueses/holandeses vieram para cá e, com a liberdade de culto daquele período, foi possível aos que aqui estavam retornar à sua fé e fundarem a primeira sinagoga das Américas no Recife.
Com a retomada portuguesa os holandeses voltaram para a Holanda e os judeus ou voltaram para a Holanda ou foram para o Caribe (Curaçao) e posteriormente para Nova Amsterdam (hoje Nova York) onde fundaram a primeira sinagoga na América do Norte.
Os que ficaram no Brasil se refugiaram no interior do Rio Grande do Norte e da Paraíba.
Não vou contar em detalhes o passo-a-passo de minhas pesquisas. Posso dizer que durante mais de um ano eu venho me sentindo como uma caçadora do meu passado e do passado de minha família.
Lembrei-me de um documentário que me fora mostrado pela minha amiga Joyce Niskier há 5 anos “A Estrela Oculta do Sertão” sobre comunidades no Nordeste brasileiro que tinham hábitos preservados há muitas gerações que coincidem em tudo com os hábitos judeus, ou seja, foram mantidos apesar do aparente catolicismo das pessoas.
Com a ajuda de mamãe, comparei esses hábitos com os hábitos de minha própria família: como matar uma galinha, como varrer a casa, como se limpar depois de voltar de um cemitério, como os mortos são enterrados em mortalhas, como os espelhos são cobertos em caso de luto, etc.
Fui recapitulando como na casa de meus avós e de meus pais não se encontravam imagens ou crucifixo e confirmei com minha mãe que era assim também na casa dos meus bisavós.
Li “Os judeus no Brasil Colonial”, “O nordeste Semita”, encontrei uma “Associação Brasileira de Judeus Descendentes da Inquisição” – ABRADJIN e encontrei preciosas referências em seu site, conheci o trabalho da maior especialista brasileira no assunto, a historiadora Dra. Anita Novinski.
Soube que o Brasil (tirando Israel) é provavelmente o país com a maior proporção de sangue semita em sua população.
Li tanto nos últimos meses que essa pesquisa se tornou quase que uma obsessão para mim.
O que eu estava tentando provar?
Que era judia? Que era holandesa?
Eu não queria provar nada, eu queria descobrir – com rigor científico – de onde vinha minha família. Eu adoro um mistério!
Fui à biblioteca da USP atrás dos livros referidos no site da ABRADJIN a partir do estudo dos sobrenomes que eu lhes passei, mas não encontrava nenhuma referência concreta de que os sobrenomes de minha família fossem judeus.
Se considerarmos que a “conversão” aconteceu no século 16, no tempo do Dom Manuel (sim o Venturoso) e que muitos nomes eram tanto de cristãos novos quanto de cristão velhos, eu sabia que essa seria uma tarefa árdua.
Então a fonte mais preciosa de dados me chegou às mãos esta semana: O Dicionários Sefaradi de Sobrenomes, uma pesquisa elaborada de 10 anos em fontes do mundo inteiro que determina então os sobrenomes usados pelos judeus que se dispersaram a partir da Espanha (Espanha é Sefar em hebraico).
Não apenas Lima, mas todos, absolutamente todos os sobrenomes constam do dicionário!!!
Três conclusões
1) O fato de não haver outras famílias (pelo menos no período pesquisado) de cristãos velhos reforça a característica do casamento dentro da mesma família ou apenas entre famílias judias como é o costume. Isso também explicaria a preservação dos traços.
2) Diferentemente da família de meu pai onde há sobrenomes cristãos-velhos e nomes de santos e santas e, apesar de termos pessoas com Maria no nome, não há uma única Maria das Dores, da Conceição, do Socorro ou nenhum nome ligado à mãe de Jesus e seus múltiplos nomes pelo mundo.
3) No lado paterno de minha mãe (Vô Francisco) há as famílias Dias, Souza, Lima e Melo que tiveram passagem pela Holanda. No lado materno (Vó Alice) há o sobrenome Alves que fez o mesmo caminho. Os demais, aparentemente, vieram diretamente de Portugal para o Brasil.
Essas últimas descobertas aconteceram na madrugada de 4a. feira.
É tão difícil compartilhar o que eu venho sentindo desde então!
Em primeiro lugar, alegria. O que era uma hipótese para mim agora é uma certeza (a não ser que alguém me prove o contrário).
Mas um outro sentimento é mais forte.
Será que o pedido que eu sentia ao ver as fotos e os nomes – Conte a minha história – e a imagem derrubada eram forças dentro de mim clamando para que eu descobrisse o que havia acontecido com eles?
Agora estou lendo coisas terríveis sobre a Inquisição, o banimento para o Brasil e a suspeita e discriminação que sempre pairaram sobre os cristãos novos.
Além do sofrimento e das mortes, pela intolerância religiosa apagou-se a fé de um povo. Pela força da opressão, Espanha e Portugal conseguiram eliminar os judeus!
O medo de ser denunciado, os prejuízos e preconceitos enfrentados, a necessidade de sobrevivência mesmo séculos depois da forçada conversão, tudo isso forçou essas famílias a viver sua fé na clandestinidade, a ocultar sua herança religiosa para seus próprios filhos até que essa memória se apagasse no tempo e seus descendentes ficassem como eu, sem a menor noção da história de seus antepassados.
Nós fomos tristemente roubados.
Então eu sei porque fui praticamente impulsionada a descobrir de onde viemos.
Para que se resgate a importância histórica e o valor desses homens e mulheres (a maioria dos degredados eram mulheres) que tiveram suas vozes caladas e que tanto contribuíram para construir o Brasil.
Eu devo isso a eles; eu só estou hoje aqui por causa deles.
E você também. Agradeça a eles, reconhecendo o papel e o sofrimento deles.
Como você se sentiria se alguém o obrigasse a abdicar de sua fé e das manifestações de sua espiritualidade?
O que você faria se fosse expulso de seu país, perdesse todas as suas propriedades e fosse banido para o fim do mundo porque você cometeu o crime de, por exemplo, não comer carne de porco como seus ancestrais faziam há milênios?
Por fim, alegre-se. Você, como eu, já sabe de onde veio e está trabalhando agora na construção de um mundo melhor para quem vier a seguir: um mundo de tolerância e respeito pelas diferenças.

10 Comments

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    Ricardo Mandel 06/10/2010 (16:22)

    Katia, I can imagine how much have you enjoyed in searching for your ancestors! Parabems for this impressive story! Ricardo.-

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    Alessandra Lima 08/11/2010 (12:02)

    Querida Katita, mais uma vez parabéns pelo lindo trabalho de resgate de nossos antepassados. Imagino o que vc sentiu nesta busca e descoberta, pois vibrei com você lendo sua história.
    Beijos com muito carinho, Alê

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      katia_pessanha@yahoo.com 07/08/2014 (15:29)

      Prima, querida, obrigada a você por ser uma das pessoas que me inspiraram nesta busca. Te amo, Katia

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    Anonymous 18/01/2013 (22:47)

    Essa é uma história de arrepiar,nasci em Cabo Verde na Africa mas sou descendentes de portugueses e africanos. Do lado portugues tenho os apelidos de familia Sousa, Mendes, Martins, Lima e Fonseca e ando a procura das minhas origens potuguesas visto que meus trisavois foram mandados para africa qunado eram crianças porque os pais foram mortos na inquisição. Mas na minha família ha muitas tradições. Os meus avós não comem carne de porco e eu não sabia porque. Descobri a pouco tempo que somos descendentes de judeus ou cristãos novos. Fiquei muito feliz pelo teu trabalho e muito obrigado pela publicacão. Nelson Lima Zego

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      katia_pessanha@yahoo.com 07/08/2014 (15:26)

      Obrigada, Nelson! Estou terminando um romance histórico “Marrana” sobre esse tema.Prometo publicar em breve todas as referências bibliográficas e sites interessantes que eu usei (e continuo usando em minha pesquisa).
      Sucesso em sua busca!

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    walter alves 09/12/2013 (03:09)

    Muito interessante! eu sou da família Alves da Paraíba por parte de pai,e Guedes por parte de mãe de Pernambuco.

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      katia_pessanha@yahoo.com 07/08/2014 (15:28)

      Puxa, seremos parentes? Estou terminando um romance histórico “Marrana” sobre esse tema e prometo publicar em breve neste blog todas as referências bibliográficas e sites interessantes que eu usei (e continuo usando) em minha pesquisa. Desculpe a demora mas me mudei de país 2 vezes neste intervalo, rss.

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      katia_pessanha@yahoo.com 14/12/2017 (19:22)

      Oi Walter, enfim, terminei e publiquei o prometido romance. espero que você goste

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    Débora 10/12/2017 (20:47)

    Difícil é não se interessar por MARRANA, um delicioso romance onde o amor e o ódio, duas forças antagônicas se entrelaçam, para mostrarnos que a busca do equilíbrio e difícil e árdua, no entanto possível!

    Débora Abiricha

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      katia_pessanha@yahoo.com 14/12/2017 (19:24)

      Sim, Débora, muito difícil, mas seguiremos tentando, apesar das recaídas perfeitamente humanas. obrigada pelo feedback!